A morte do Camurujipe

Posted on 30/12/2007 por

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por Claudiana Silva

Não há como não perceber que o ar da cidade de Salvador está com um aroma modificado. Ao passar, seja andando ou de carro, às margens de grandes rios que cortam a cidade, constata-se que um cheiro fétido vem de lá. Como o Rio Camurujipe, que junto a outros rios, até a década de 70, foram responsáveis pelo abastecimento de água para a cidade e hoje se encontram com altos índices de poluição.

Apesar do crescimento rápido das cidades, as edificações, principalmente as residenciais, não tiveram uma construção adequada que possibilitasse a eliminação correta dos dejetos produzido pela população. Em Salvador, a forma como se deu a construção do esgotamento sanitário da cidade foi e em uma parte considerável ainda continua sendo precária e de certa forma rudimentar. Segundo a engenheira ambiental da Embasa, Rita Bonfim, o sistema de esgotamento sanitário consistia na construção de vias de esgotos individuais que se dirigia para os rios e/ou mares, sem passar por nenhum tratamento. O ideal seria que as vias de esgotos saissem individualmente das casas canalizados, num outro momento se encontrassem em ducto maior, sendo então direcionadas às estações de tratamento e depois lançados no mar.

O Rio Vermelho, que dá nome ao bairro, conhecido também como Lucaia, é um braço do rio Camurujipe. Ele atravessa toda a Avenida Juracy Magalhães Júnior e deságua no mar. Antes chamava a atenção pela beleza das suas águas avermelhadas. Esta coloração se dava graças ao tipo de arenoso que constituía o seu terreno. A Avenida Juracy Magalhães Júnior também passou a ser conhecida como Rua do Canal, isso por que o rio foi transformado num grande canal a céu aberto. Atualmente, o que chama a atenção, assim como o rio mãe, é a presença de um grande volume de lixo e altos índices de poluição. No trecho do Shopping Salvador, na região do Iguatemi, podemos observar o quanto a cidade perdeu ao transformar esse grande rio em um reservatório sanitário. Naquele trecho, o Camurujipe encontra-se completamente poluído, e suas margens, que antes estavam cobertas por vegetação, hoje encontram-se cobertas por concreto, perdendo totalmente características de rio.

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Como o bairro do Rio Vermelho cresceu às margens do Lucaia, os dejetos das casas eram e são lançados nele, produzindo assim um ambiente ideal para a proliferação de alguns moradores indesejavéis, como ratos, baratas, muriçocas e há quem fale até em cobras. Em decorrência disso alguns moradores consideram o canal uma propícia fonte de doenças. Quem reside às suas margens afirma que, por várias vezes procuraram a prefeitura com a esperança que o órgão resolvesse o problema, porém nunca tiveram uma resposta satisfatória, resultando sempre no jogo de empurra – empurra entre a prefeitura e a Embasa.

Segundo um morador antigo que não quis se identificar, os problemas ligados a poluição são inúmeros, desde o mal cheiro, extremamene forte, que é a principal reclamação, até a possibilidade de transmição de doenças. Comenta: “Outro dia encontrei Dona Joana. Ela me disse que sua filhinha estava doente, de um dia para o outro apresentou febre, assim, de repente… O que é isso? É essa sujeira aí, e a gente é quem fica na pior”. Questionado sobre a intervenção da prefeitura, ele diz que nada se resolve: “É cansativo, os governantes vestem a pele, mas não são lobos. O eleitor só vale para esse povo demagogo, enquanto não deposita seu voto na urna”.

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Inúmeros prejuizos
O mau cheiro incomoda a quem passa, a quem vive às margens do rio e a quem trabalha próximo ao canal. Lá existem várias casas comerciais, como oficina, padaria, pet shop, faculdades e até um restaurante. Todos os comerciantes têm o mesmo discurso, o mesmo posicionamento, reclamam sempre do mal cheiro. O forte odor, além de levar prejuizo à saúde daquelas pessoas que precisam ficar um grande período exposto a ele, também traz prejuízo para comércio, pois acaba afastando os clientes. É o que afirma Paula Dautro, gerente da loja Campo Belo, especializada em produtos veterinários. Paula termina dizendo que alguns funcionários ao final de um dia de trabalho acabam apresentando fortes dores de cabeça, atribuídas ao mau cheiro.

Há muito tempo atrás a prefeitura realizou alguns trabalhos para reduzir a ocorrência dos transbordamentos, que sempre aconteciam em épocas de chuvas. Hilzete Cuzi, moradora da rua desde a infância, diz que os transbordametos eram constantes, mas depois dos trabalhos de limpeza do canal, a ocorrência foi reduzida. “Hoje durante as chuvas o volume de água dobra, o canal fica muito cheio, mas não há alagamentos. Seria até bom que alagasse porque pelo menos lavava, la-va-va…, o pior é esse mal cheiro que ninguém suporta. Muito se fala sobre o Bahia Azul, muito comercial, mas pouca ação. O que temos aqui é um Bahia Negro”, afirma.

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Quem reclama também causa
A presença de um grande volume de lixo às margens do Lucaia denuncia que algo mais é lançado em seu leito além das águas de esgoto. É o que confirma Adriana Antunes, que trabalha numa das residências situada na avenida. Ela, por várias vezes, já presenciou alguns indivíduos jogando lixo dentro do rio, não só lixo, mas também animais mortos. “Esta ação só contribui para o agravo do nosso problema, todo mundo reclama da poluição do rio, mas alguns moradores daqui também são responssáveis pelo estado que o rio se encontra”, acrescenta.

Procuramos a prefeitura para conhecer seu posicionamento quanto às afirmações feitas pelos moradores da rua do canal. Foi quando o nome de Antônio Almir Santana Melo Júnior surgiu. Almir Melo, como é mais conhecido, na atual gestão ocupa o cargo de diretor admnistrativo da Superintendência de Manutenção e Conservação da Cidade (SUMAC). Não foi possível conversar com ele, pois estava em uma viagem, segundo informações de sua secretaria. A função da SUMAC é a de executar o plano de conservação e manutenção de estradas e vias, além se administrar o sistema de drenagem do município.

Fomos direcionados para Fernando Sampaio, gerente de operações deste órgão. Sampaio nos informou que alguns trabalhos já haviam sido realizados para amenizar os problemas causado pelo rio, como a limpeza do seu leito. Porém as atividades foram suspensas em determinado momento, por que os equipamentos utilizados para fazer a drenagem, estavam batendo num duto da Empresa Baiana de Água e Saneamento (Embasa) que passava por baixo do rio, e que transporta dejetos sanitários e segue em direção ao mar. E este constante atrito poderia causar danos ao duto gerando um problema ainda maior. “Após algumas drenagens precebemos a existência deste duto que impedia a continuidade de nossos trabalhos. Temos a intenção de resolver o problema do rio, mas para isso é preciso que a Embasa resolva o problema do duto e também das bocas de esgotos que constantemente despejam dejetos no canal e são de sua resposabilidade”, comentou.

A Embasa, através do gerente da divisão de tratamento de esgotos, Virgílio Bandeira, responde dizendo que no local existe um emissário submarino, ou seja, um duto que transporta esgoto sanitário após passar por um adequado tratamento nas estações. Ele foi construído sob o rio e segue em direção ao oceano e a sua retirada seria algo complicado, já que foi construido a uma grande profundidade. “Ele passa por baixo do rio”, enfatiza e acrescenta: “E podem ter sido as constantes escavações da SUMAC que tornou este emissário vunerável”.

Segundo ele, ainda não existe um programa de despoluição de rios e através do extinto programa Bahia Azul a empresa tentava mudar as características da rede de esgotamento sanitário da Bahia. Os trabalhos realizados hoje pela EMBASA, possuem este objetivo e superam os planos de execulção do antigo Bahia Azul. “A retirada das bocas de esgotos do rio faz parte deste programa, só que é necessário trabalhar nas residências para mudar as ligações”. Bandeira acrescenta: “Este trabalho é dificil pois temos que quebrar as casas das pessoas e na maioria e das vezes elas se recusam a deixar que o nosso trabalho seja realizado”.

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Outro problema é o crescimento urbano e desordenado, onde de um lado o problema é resolvido e de outro se complica, e isto ocorre graças ao aparecimento de novos bairros e sua má urbanização, que gera novas redes de esgotamento mal estruturada. Para resolver esse problema é essencial o trabalho de urbanização em toda a cidade, acrescenta Bandeira.

Questionado aos dois orgãos quanto a possibilidade do trabalho em conjunto, Virgílio Bandeira diz que uma forma para tentar resolver o problem seria trabalhar em parceria com a SUMAC. Fernando Sampaio por sua vez afirma que apenas Almir Melo, diretor admnistrativo da SUMAC, possue respaldo para falar a respeito. E nesse jogo de empurra-empurra, nada se resolve o Rio Vermelho continua poluído atrapalha vida do moradores.

(outubro de 2007)

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Posted in: Saneamento