Vila Dois de Julho espera pelo esgoto

Posted on 30/12/2007 por

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por Florence Perez
[florperez20@hotmail.com]

A comunidade Vila Dois de Julho, localizada na Estrada Velha do Aeroporto, é um dos oito distritos da região metropolitana de Salvador que não tem rede de coleta de esgoto, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo após 11 anos de Projeto Bahia Azul, o bairro não foi considerado como zona prioritária para que fossem instalados mecanismos de saneamento básico. Os resíduos líquidos e sólidos expostos contribuem para a proliferação de ratos e mosquitos, que expõem a população local a doenças como a leptospirose e a dengue.

Segundo Cristovam Bispo dos Santos, que mora no bairro há 27 anos e hoje é vice-presidente da Associação dos Moradores da Vila Dois de Julho, somente há seis anos os moradores encontraram uma solução temporária para resolver o problema da falta de rede de esgoto. “Nós cavamos, colocamos tubos de cênio e depois colocamos asfalto por cima”, conta Cristovam. O tubo cênio é uma espécie de cano que fica embaixo de cada residência e leva todo o lixo produzido por elas até o Rio Mocambo e o Rio Trobogy, que possuem nascente no bairro.

Poucos moradores têm fossas instaladas em casa, pois, segundo Antônio Andrade, vice-presidente da Amovila, outra associação local, é um sistema caro, custando entre R$150 e R$ 400 para limpá-las. Essas fossas evitam a poluição dos rios e o mau cheiro para quem mora perto delas. Como é um bairro carente, a única solução encontrada foi continuar despejando os resíduos nos rios. “Isso causa o aterro de nascentes, desmatamento, poluição dos nossos rios e a proliferação de doenças”, afirma Andrade.

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Questões de saneamento básico são de responsabilidade pública, pois refletem diretamente na saúde dos cidadãos. De acordo com a Constituição Brasileira de 1988, Art. 197, “são de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado”.

Quando procurado pelo jornal Fala Comunidade, o departamento de comunicação da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), explicou que “quando o Bahia Azul foi implantado, há 11 anos, algumas áreas de Salvador, como aquela que abrange as terras por onde passa o rio Trobogy e seus afluentes, não tinham população significativa que justificasse a implantação de sistema de esgotamento sanitário. Outras áreas, mais populosas, foram priorizadas na época”. Dessa forma, é possível deduzir que, nos bairros carentes, somente quando há um número muito grande de pessoas vivendo em condições precárias é que se vai pensar em fazer algo a respeito.

“Quando chove, desce lama, lixo, fezes pra frente de casa. Piora tudo”, relata Benedita Brandão, que mora na comunidade de Vila Dois de Julho há 17 anos com seu marido e mais quatro pessoas. Sua casa fica na beira do rio Trobogy. É uma rua de barro, onde desembocam todos os dejetos vindos da tubulação das casas locais e o cheiro é extremamente desagradável. Josafár Correia Silva, marido de Benedita, já teve dengue hemorrágica, e conta que há muitos mosquitos no local e vê sempre muitos ratos na rua.

Saúde
Salvador é uma cidade endêmica para a leptospirose. Tal doença, que pode levar a óbito se não tratada a tempo, é causada por uma bactéria que tem como principal agente transmissor o rato. De acordo com Carlos Alberto Santana, biólogo do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), O distrito de Pau da Lima, que abrange Vila Dois de Julho, é considerado uma “zona quente”, ou seja, há uma alta incidência da doença no local.

Segundo dados do CCZ, somente este ano foram registrados sete casos de leptospirose e uma morte no distrito. “O uso de raticida diminui um pouco o número de ratos, mas não resolve o problema. É um problema de contaminação ambiental e a falta de saneamento agrava a situação”, afirma o biólogo.

Os moradores já estão se mobilizando para fazer algumas manifestações. Um exemplo disso é o bairro Bosque Real, que também fica na Estrada Velha do Aeroporto (EVA), e seus moradores realizaram manifestações em outubro para pedir obras de saneamento básico na região. Os manifestantes impediram o trânsito nas duas faixas da Estrada Velha do Aeroporto. Em maio desse ano, foi realizada uma reunião com a presença de um representante da Embasa, moradores e líderes comunitários que, segundo as lideranças locais, Antônio Andrade e Cristovam dos Santos, tiveram como objetivo tentar solucionar o problema.

Ainda não há uma data ou um projeto definido para a instalação de rede de esgoto nas comunidades do EVA. Contudo, recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foram liberados para a ampliação do Sistema de Esgotamento Sanitário de Salvador, de acordo com o site do Governo Federal. A assessoria da Embasa afirma que “as obras começam no ano que vem”.

Informação complementar
O Brasil tem um déficit de 53% no atendimento da coleta e tratamento de esgoto. Mais da metade dos brasileiros vivem em condições precárias. E o pior, desde 1992, o acesso à coleta e tratamento de esgoto cresce apenas 0,4% por ano. Esses números constam no estudo realizado pelo economista Marcelo Neri, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

(outubro de 2007)

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